O Mercado Livre encerrou o terceiro trimestre de 2025 ampliando sua base de usuários e reforçando presença no e-commerce latino-americano, mas sob maior pressão sobre margens. A companhia reportou lucro líquido de US$ 421 milhões e avanço de 39% na receita total, alcançando US$ 7,4 bilhões. O período confirma a força do ecossistema digital, embora a política de frete grátis e o câmbio adverso tenham limitado parte da rentabilidade.
Os números reforçam a leitura de que a empresa mantém ritmo elevado de expansão mesmo em um ambiente de custos logísticos mais altos e maior volatilidade regional. Para investidores, o trimestre indica como a companhia busca sustentar competitividade em mercados-chave enquanto enfrenta desafios operacionais relevantes.
O panorama do trimestre
O Mercado Livre, listado na Nasdaq e negociado no Brasil por meio dos BDRs MELI34, segue como uma das principais plataformas digitais da América Latina. No trimestre, o e-commerce representou 23% da receita total, enquanto o Mercado Pago respondeu por 44%. A diversificação entre linhas de negócio se consolidou como estratégia para reduzir dependência do varejo tradicional em um período de desaceleração em alguns países.
O aumento do GMV (volume bruto de mercadorias) e o crescimento no número de transações reforçam a maturidade do ecossistema, impulsionado por conveniência, crédito digital e soluções integradas de pagamento. Pressões externas — como mudanças tributárias na Argentina e desvalorização cambial — afetaram conversão de receita e elevaram despesas, diminuindo parte do resultado operacional.
Em documentos enviados à SEC, a companhia indica que continuará priorizando investimentos em logística, tecnologia e expansão financeira. São áreas consideradas essenciais para manter escala e recorrência de receita em mercados onde a competição com Amazon e Shopee é mais intensa.
Pressões sobre as margens
O frete grátis, um dos principais incentivos para estimular compras recorrentes, permanece como fator relevante nas despesas. A iniciativa amplia tráfego e conversão, mas pressiona margens, especialmente em períodos de câmbio desfavorável. No trimestre, o lucro operacional caiu para US$ 724 milhões, recuo de 30% frente ao ano anterior.
A empresa registrou avanços em eficiência logística. Rotas otimizadas, maior ocupação de centros de distribuição e expansão da frota dedicada reduziram o custo médio por entrega. No comparativo trimestral, o custo logístico recuou 8%, ponto que pode ajudar a aliviar parte da pressão ao longo de 2026.
O equilíbrio entre incentivos ao frete e controle de despesas segue como um dos principais desafios da companhia, já que influencia diretamente previsibilidade de margens e geração de caixa.
O comportamento dos mercados
No Brasil, o número de compradores únicos cresceu 9,2%, maior avanço trimestral da série histórica. O México apresentou trajetória semelhante, sustentado por forte expansão do marketplace. A Argentina, por sua vez, lida com inflação persistente e menor tração de consumo, o que limita parte do desempenho regional.
O Mercado Pago segue ganhando relevância dentro da receita total, ampliando linhas de crédito, pagamentos e serviços digitais para 72 milhões de usuários ativos. Essa frente reforça a estabilidade financeira do grupo e amplia o ciclo de fidelização dentro do ecossistema.
O crescimento regional fortalece o GMV e amplia o peso dos serviços financeiros na receita. Mesmo com o frete grátis ainda pressionando margens, avanços logísticos têm reduzido custos e contribuído para maior equilíbrio operacional.
O Mercado Ads também avança, impulsionado por maior demanda por anúncios direcionados e uso intensivo de dados. O crescimento da vertical aumenta o peso das receitas de maior margem e reduz dependência do varejo tradicional.
O que molda 2026
A estratégia para 2026 se apoia em eficiência logística, fortalecimento do marketplace e expansão das frentes financeiras e de publicidade. Parcerias com empresas de tecnologia sustentam a construção de um ecossistema integrado, que permite monetizar compras, pagamentos, crédito e anúncios.
A queda dos juros na região pode estimular consumo e ampliar demanda por crédito digital, favorecendo o desempenho das principais linhas do grupo. A consistência dessa trajetória dependerá do equilíbrio entre incentivos comerciais e gestão de custos nos próximos trimestres.
O desafio competitivo está em manter liderança frente a players globais com maior capacidade de investimento. O reforço das frentes de maior margem pode ajudar a sustentar o diferencial competitivo da companhia no médio prazo.
Pontos que guiam o investidor
O caso do Mercado Livre ilustra a transição de varejo digital para plataforma integrada, combinando e-commerce, pagamentos, crédito e publicidade em múltiplas fontes de receita. O modelo fortalece recorrência, monetização e tempo de permanência do usuário.
Para investidores, o desafio é avaliar o equilíbrio entre crescimento, pressão sobre margens e expansão das frentes de maior valor agregado. O Guia Investimentos Internacionais apresenta orientações para análise de empresas listadas no exterior, uso de BDRs e composição de portfólios com exposição global.




