A combinação entre juros elevados e desaceleração do crédito continua produzindo efeitos relevantes sobre a atividade industrial brasileira. Com a Selic mantida em 15% ao ano, o país perdeu 21 posições no ranking industrial da ONU, caindo da 38ª para a 59ª colocação entre 79 economias avaliadas. O movimento representa uma das maiores quedas desde 2016 e evidencia o impacto de um ambiente de financiamento caro em setores que dependem de investimentos contínuos em tecnologia, máquinas e modernização produtiva.
O levantamento, elaborado com dados da Agência de Estatísticas Industriais da ONU e analisado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), reforça a distância entre o desempenho do Brasil e o padrão global. Para investidores e analistas, o resultado mostra como decisões de política monetária influenciam diretamente o ritmo de expansão de cadeias produtivas e de setores ligados ao consumo sensível ao crédito.
Por que o ritmo da indústria brasileira ficou para trás
No segundo trimestre de 2025, a produção industrial mundial cresceu 1,1%, enquanto o Brasil registrou queda de 0,6%. Em bases anuais, a diferença também foi significativa: alta de apenas 0,4% no país, contra 4% na média global. A discrepância revela a dificuldade nacional em acompanhar a retomada pós-pandemia, especialmente em segmentos que dependem de crédito de longo prazo, como bens de capital, eletroeletrônicos e máquinas industriais.
Outros países da América Latina, como México e Chile, apresentaram desempenho superior, impulsionados por programas de crédito direcionado e ambientes de financiamento menos restritivos. Regiões asiáticas e da Europa Oriental lideraram o avanço global com políticas industriais focadas em exportações tecnológicas, infraestrutura e produção de alto valor agregado.
Relatórios da OCDE destacam que economias com juros reais menores tendem a apresentar ciclos de investimento mais estáveis e maior modernização tecnológica. O desempenho brasileiro reflete limitações estruturais e o peso de uma política monetária mais apertada, que encarece o crédito e reduz incentivos ao investimento produtivo.
Como os juros elevados afetam a estrutura produtiva
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a oferta de crédito para o setor recuou cerca de 60% entre 2012 e 2024. Com a Selic em 15%, projetos de inovação, aquisição de maquinário e expansão de capacidade se tornam mais custosos, e iniciativas de modernização são adiadas. Em setores intensivos em capital, o juro elevado pressiona margens e amplia riscos, criando obstáculos para empresas de diferentes portes.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, ressalta que o sistema financeiro concentra grande parte dos recursos em linhas voltadas ao consumo, enquanto investimentos produtivos enfrentam restrições. Esse cenário reduz competitividade internacional, amplia a defasagem tecnológica e aumenta a dependência de importações em segmentos estratégicos.
A operação recente do setor reforça esse padrão. Entre 2020 e 2021, período em que a Selic foi reduzida para 2%, a indústria registrou recuperação rápida, especialmente em bens de capital e eletrônicos. O atual ciclo de juros elevados reverteu essa tendência e tornou projetos de expansão mais difíceis de sustentar financeiramente.
Para entender como políticas de juros impactam o crédito e o custo do capital, o Guia Selic explica os efeitos diretos das decisões do Banco Central sobre investimentos, consumo e condições de financiamento.
O que a queda no ranking significa para a economia
A perda de posições no ranking da ONU tem implicações mais amplas para o crescimento econômico brasileiro. Entre os principais efeitos observados estão:
- Redução do investimento produtivo: empresas adiam projetos diante do custo elevado de financiamento.
- Perda de competitividade internacional: produtos nacionais enfrentam concorrência de países com crédito mais barato.
- Menor produtividade: sem renovação tecnológica, o ganho de eficiência permanece limitado.
A comparação global reforça a sensibilidade do setor brasileiro. Economias com inflação semelhante à do Brasil operam com taxas nominais e reais menores, o que favorece previsibilidade e incentiva investimentos de longo prazo. Enquanto isso, o mercado doméstico enfrenta juros altos para preservar o controle inflacionário, o que restringe o espaço para políticas industriais mais agressivas.
Setores dependentes da atividade interna, como manufatura, bens duráveis e varejo sensível ao crédito, tendem a sentir mais o aperto monetário. Em contrapartida, indústrias exportadoras, como mineração e agronegócio, mostram maior resiliência, beneficiadas pela demanda externa e pela taxa de câmbio.
O que pode influenciar o cenário nos próximos meses
Parte do mercado projeta que a Selic pode começar a recuar gradualmente ao longo de 2026, o que tende a melhorar o ambiente de crédito e viabilizar projetos represados. No entanto, analistas afirmam que a recuperação industrial deve ser lenta e condicionada a previsibilidade fiscal, confiança empresarial e maior integração do país a cadeias globais de produção.
Para pequenas e médias indústrias, o desafio é ainda maior. Linhas voltadas à digitalização, inovação e aquisição de equipamentos devem ganhar espaço em programas de incentivo, mas ainda não possuem escala suficiente para alterar o quadro estrutural. Sem redução consistente do custo de capital, a indústria continuará operando em um ambiente de restrição.
Experiências internacionais indicam que políticas de longo prazo combinadas a crédito barato e estímulos à produtividade tendem a acelerar a modernização industrial. Países líderes do ranking reforçam estratégias que priorizam tecnologia, exportações e financiamento acessível.
Como acompanhar os impactos da Selic na economia real
Para quem analisa setores produtivos, monitorar juros é essencial para entender ciclos de expansão e retração. Variações na Selic influenciam diretamente o custo do capital, o ritmo de investimento e as condições de crédito para empresas de todos os tamanhos.
Ferramentas como o Guia de CDB e o Guia Planejamento Financeiro ajudam a entender como decisões de política monetária impactam a renda fixa, o comportamento das empresas e o desempenho macroeconômico.
Uma visão mais ampla sobre o papel dos juros no setor industrial
A queda do Brasil no ranking industrial da ONU evidencia como uma política monetária restritiva afeta cadeias produtivas em um país com histórico de crédito caro. O desafio está em conciliar estabilidade de preços com condições propícias ao investimento, especialmente em setores que exigem modernização contínua.
Para investidores e observadores do mercado, acompanhar a trajetória da Selic e sua relação com o crédito produtivo é fundamental para compreender riscos e oportunidades em diferentes segmentos da economia. A dinâmica industrial influencia emprego, renda e atividade econômica — pontos centrais para mapear o comportamento de setores listados e seus possíveis desdobramentos ao longo do tempo.




