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A Venezuela intensificou o uso de criptomoedas como alternativa financeira em meio às sanções impostas pelos Estados Unidos. Sem acesso pleno ao sistema bancário internacional e com restrições sobre exportações, especialmente de petróleo, o governo de Nicolás Maduro passou a utilizar ativos digitais para manter parte das operações comerciais e estatais em funcionamento.

O movimento, que começou de forma pontual, evoluiu para uma estratégia estruturada de uso de blockchain e stablecoins em transações internas e externas. Para além do debate político, o caso venezuelano mostra como a infraestrutura cripto pode ser usada por Estados que enfrentam isolamento financeiro, com impactos diretos na geopolítica e na regulação global.

Como as restrições externas moldaram a adoção de cripto

Desde 2019, a Venezuela convive com restrições severas a bancos, empresas estatais e operações em dólar. Sanções unilaterais e controles rígidos sobre exportações criaram obstáculos para pagamentos internacionais, acesso a crédito e movimentação de reservas. Diante desse cenário, Caracas começou a recorrer a criptomoedas em pagamentos a fornecedores e parceiros estratégicos ligados ao setor de energia.

A desconfiança da população em relação à moeda local, marcada por hiperinflação e sucessivas desvalorizações do bolívar, abriu espaço para uma “criptoeconomia paralela”. Em diferentes regiões do país, transações cotidianas — como compras de alimentos, remessas de familiares no exterior ou pagamentos de serviços — passaram a ocorrer em stablecoins atreladas ao dólar, ainda que o uso não seja uniforme em todo o território.

Nesse ambiente, ativos digitais passaram a cumprir funções que, em contextos mais estáveis, seriam desempenhadas pela moeda nacional e pelo sistema bancário tradicional. Para parte da população, o acesso a criptomoedas passou a ser uma forma de preservar poder de compra e fugir da volatilidade da economia doméstica.

O que mudou na estratégia econômica venezuelana

Para organizar o uso de criptoativos, o governo criou o órgão regulador Sunacrip, responsável por autorizar plataformas, definir regras e supervisionar operações em blockchain. Entre as iniciativas oficiais, esteve o lançamento do Petro, moeda digital lastreada em petróleo. Embora tenha tido pouca adesão, o projeto funcionou como laboratório institucional e permitiu testar formatos de tokenização e monitoramento.

Com o tempo, a estratégia foi ajustada. A Venezuela passou a priorizar o uso de stablecoins emitidas por plataformas privadas, que oferecem maior liquidez e eficiência operacional. Na prática, parte das receitas em moeda estrangeira é convertida em ativos digitais, movimentada por intermediários e usada para pagar fornecedores, financiar importações específicas e garantir operações logísticas consideradas sensíveis.

Relatórios independentes apontam que essas operações ocorrem tanto em redes públicas, muitas vezes com camadas adicionais de privacidade, quanto por meio de empresas especializadas em conversão entre moedas fiduciárias e cripto. O modelo combina agilidade e menor custo de intermediação, ao mesmo tempo em que dificulta bloqueios diretos por autoridades internacionais.

Consequências para empresas, comércio e fluxo financeiro

A adoção de criptomoedas pela Venezuela produz efeitos em diferentes níveis. Para o governo, representa uma forma de preservar alguma liquidez internacional em um contexto de isolamento. Para empresas e comércios locais, cria alternativas de pagamento e recebimento em ativos atrelados ao dólar, reduzindo a dependência do bolívar nas transações do dia a dia.

Prestadores de serviço, pequenos comércios e profissionais autônomos passaram a aceitar stablecoins como forma de proteger renda e facilitar trocas em um país que convive com períodos de escassez de dinheiro físico. Ao mesmo tempo, bancos e organismos multilaterais precisam lidar com fluxos menos rastreáveis e com um sistema paralelo que não segue totalmente a lógica bancária tradicional.

  • Governos sob sanções utilizam redes cripto para manter acesso a pagamentos externos;
  • Stablecoins passam a circular como meio de troca diante da fragilidade da moeda local;
  • Órgãos internacionais enfrentam pressão para aprimorar mecanismos de monitoramento e cooperação.

Para quem deseja entender melhor como esses ativos funcionam, o Guia Stablecoins 2025 explica em detalhes os tipos de stablecoins, seus riscos e o papel que elas desempenham na conexão entre o sistema financeiro tradicional e o universo digital.

Sinais que indicam os próximos passos da política monetária

O uso de criptomoedas pela Venezuela para driblar sanções evidencia como ativos digitais ganharam peso geopolítico. A estratégia combina busca por liquidez, necessidade de operar em mercados restritos e adaptação tecnológica, criando um ambiente em que política monetária, segurança e regulação se cruzam com mais frequência.

Enquanto organismos multilaterais discutem regras mais rígidas para exchanges e intermediários, entidades como o FATF reforçam recomendações voltadas ao combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento de atividades ilícitas por meio de criptoativos. Esses debates tendem a influenciar a forma como países com histórico de sanções serão monitorados nos próximos anos.

Para investidores e analistas, acompanhar casos como o venezuelano ajuda a antecipar mudanças regulatórias, ajustes em controles de capitais e possíveis respostas de bancos centrais. Em mercados emergentes, o uso de ativos digitais por Estados também levanta discussões sobre soberania financeira, estabilidade regulatória e limites da descentralização em um cenário de maior vigilância internacional.


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